Viewing Room / Últimos sons, João Pimenta Gomes (22 February – 28 March)

A black wall at the center of the gallery, as if covered by a dark veil, welcomes the audience into a magnetic void. It is a ground zero, a space to be filled by the perceptions of each individual. In this environment, the few objects on display offer different sensory experiences. There are four modular synthesizers arranged on the floor, each connected to a speaker raised high above: symbiotic bodies that, respectively, produce and emit a continuous sound. However, they will only allow these audios to surface if a body comes near. In dialogue with these pieces, there is a 35mm photograph that bears the only visible image in this exhibition. Although the photographed scene is apparently banal, there is an enigma within it that preserves the emotional gravity of the moment portrayed. Thus, the photo performs the same gesture of the sound installations: it reveals its inner frequencies only to those willing to approach its mystery.

Uma parede pintada de preto no centro da galeria, como que coberta por um véu escuro, recebe o público com um vazio magnético. É um signo zero, um espaço a ser preenchido pelas perceções de cada um. No ambiente, os poucos objetos expostos demarcam diferentes experiências sensíveis. Existem quatro sintetizadores modulares dispostos no chão, cada qual conectado a um speaker alçado no alto: corpos simbióticos que, respetivamente, produzem e emitem um som continuamente. Contudo, só permitirão que os seus áudios venham à tona mediante a aproximação de um corpo. Em diálogo com essas peças, há uma fotografia de 35mm que oferece a única imagem desta exposição. Muito embora a cena seja de aparente banalidade, há qualquer enigma no seu interior que guarda a gravidade emocional do momento retratado. Desse modo, a fotografia performa o mesmo gesto das instalações de som: revela as suas frequências interiores somente àqueles que estão dispostos a aproximar-se do seu mistério.

Entitled “Últimos sons”, this first solo exhibition of João Pimenta Gomes at Galeria Vera Cortês brings, through these specific incisions, the core of his research about the possible interactions—both physical and subjective—between body, sound, and space. In this sense, the artist combines concepts and sensory exercises, orchestrating analog and digital instruments to create environmental experiences and generate undefined, abstract, non-linear narratives. His works test our sensorial faculties, but above all our ability to process the world around us.

Intitulada “Últimos sons”, a primeira exposição individual de João Pimenta Gomes na Galeria Vera Cortês traz, por meio dessas intervenções pontuais, o núcleo da sua pesquisa sobre as interações possíveis, tanto físicas quanto subjetivas, entre corpo, som e espaço. Nesse sentido, o artista cruza conceitos e exercícios sensoriais, e orquestra instrumentos analógicos e digitais para criar experiências ambientais e engendrar narrativas indefinidas, abstratas e não lineares. As suas obras testam as nossas faculdades sensoriais, mas sobretudo a nossa capacidade de processar o mundo que nos cerca.

The four sources of sound located in the space embody a duality that contrasts the technological apparatus of their productive bases and the synthetic and economic forms of their communicative top. Whereas the synths make their internal mechanisms visible, with the chaotic aesthetic of cables and apparent connections, the customized speakers resemble mouth cavities singing through sharp teeth, in a manifestation resembling magic or an unknown technology. Their peculiar anatomy gives them the appearance of entities from the realm of science fiction. These big mouths remain covered until a presence invokes their reaction. However, when we get close they do not devour us, but instead allow us to hear the sounds that they produce.

As quatro fontes de som situadas no espaço trazem em si um binómio físico que contrasta o aparato tecnológico das suas bases produtivas e as formas sintéticas e econômicas do seu topo comunicador. Ao passo que os synths deixam visíveis os mecanismos do seu funcionamento, com uma estética do caos de cabos e conexões aparentes, os speakers customizados assemelham-se a cavidades bucais cantando por entre dentes afiados, numa manifestação que remonta à magia ou a uma tecnologia que desconhecemos. A sua anatomia peculiar confere-lhes o aspeto de entidades vindas do universo da ficção científica. Essas grandes bocas permanecem tapadas, até que uma presença invoque a sua reação. Ao chegarmos perto, entretanto, não nos abocanham, mas permitem que escutemos os sons que estão sendo produzidos ali.

They break their vow of silence and begin to whisper in our ears, emitting something between the guttural, the archaic, and the notes of advanced technology. Their sounds invite contemplative meditation, but also awaken nostalgia and melancholy. Like a new liturgy, these tunes are requiems mourning the loss of the seconds that pass while we listen to them. They are meta-music about our own perception of space-time.

Abandonam seu voto de silêncio e passam então a sussurrar-nos ao ouvido, emitindo algo entre o gutural, o arcaico e os sons de avançadas tecnologias. As suas sonoridadesconvidam à meditação contemplativa, mas também despertam nostalgia e melancolia. Como uma nova liturgia, esses sons são réquiens que choram a perda dos segundos que vão passando enquanto os escutamos. São meta-músicas sobre nossa própria perceção do espaço-tempo.

João Pimenta Gomes, Últimos sons #2 hi mlltr mst. Speaker, power amplifier, moduar synthesiser, 6’08’’, gelatin silver print. Variable dimensions. Unique
João Pimenta Gomes, Últimos sons #2 hi mlltr mst. Speaker, power amplifier, moduar synthesiser, 6’08’’, gelatin silver print. Variable dimensions. Unique

João Pimenta Gomes, Últimos sons #2 hi mlltr mst. Speaker, power amplifier, moduar synthesiser, 6’08’’, gelatin silver print. Variable dimensions. Unique

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João Pimenta Gomes, Últimos sons #1 mlltrn daeolian imprv II, 2024. Speaker, power amplifier, modular synthesiser, 3’18’’, gelatin silver print. Variable dimensions. Unique












João Pimenta Gomes, Últimos sons #1 mlltrn daeolian imprv II, 2024. Speaker, power amplifier, modular synthesiser, 3’18’’, gelatin silver print. Variable dimensions. Unique

João Pimenta Gomes, Últimos sons #1 mlltrn daeolian imprv II, 2024. Speaker, power amplifier, modular synthesiser, 3’18’’, gelatin silver print. Variable dimensions. Unique

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This procedure brings to mind a famous quote—with versions attributed to both Mozart and Debussy— about the essence of music not being in the notes but in the silence between them. Later, this same idea was epitomized by Miles Davis as: “It’s not the notes you play, it’s the notes you don’t play.” Therefore, there is a clear reference to investigations into negative space in music, especially the legacy of John Cage and his 4’33”, the theories and practices of deep listening, and the core of ambient music. The composition with eternal loops, for example, reminds William Basinski’s emblematic pieces.
 
Finally, there is the definitive influence of spiritual jazz, a genre covering a wide spectrum of productions that combine exploratory aspects of jazz with Eastern esoteric traditions and themes related to spiritual transcendence.

O procedimento faz lembrar uma famosa frase com versões atribuídas a Mozart e a Debussy, sobre a essência da música não estar nas notas e sim no silêncio entre elas, e que mais tarde foi sintetizada por Miles Davis assim: “It’s not the notes you play, it’s the notes you don’t play.”
Há, portanto, a clara referência às investigações sobre o espaço negativo na música, sobretudo o legado de John Cage e seu 4’33”, as teorias e práticas de deep listening, e os fundamentos da ambient music.
A composição com processamentos em loops eternos, por exemplo, lembram as peças emblemáticas de William Basinski. Por fim, há a influência definitiva do spiritual jazz, género que abrange um amplo espectro de produções que combinam vertentes exploratórias do jazz com tradições esotéricas orientais e temas ligados à transcendência espiritual.
 
Germano Dushá

João Pimenta Gomes, Últimos sons #3 mlltr loops DL4 mstrd, 2024. Speaker, power amplifier, modular synthesiser, 7’28’’, gelatin silver print. Unique
João Pimenta Gomes, Últimos sons #3 mlltr loops DL4 mstrd, 2024. Speaker, power amplifier, modular synthesiser, 7’28’’, gelatin silver print. Unique

João Pimenta Gomes, Últimos sons #3 mlltr loops DL4 mstrd, 2024. Speaker, power amplifier, modular synthesiser, 7’28’’, gelatin silver print. Unique

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João Pimenta Gomes, Últimos sons #4 mlltrn mldy imprv 5.02 mstrd, 2024. Speaker, power amplifier, modular synthesiser, 3’18’’, gelatin silver print. Variable dimensions. Unique
João Pimenta Gomes, Últimos sons #4 mlltrn mldy imprv 5.02 mstrd, 2024. Speaker, power amplifier, modular synthesiser, 3’18’’, gelatin silver print. Variable dimensions. Unique

João Pimenta Gomes, Últimos sons #4 mlltrn mldy imprv 5.02 mstrd, 2024. Speaker, power amplifier, modular synthesiser, 3’18’’, gelatin silver print. Variable dimensions. Unique

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BIO
 
 
João Pimenta Gomes (Lisbon, 1989) is a visual artist and musician who lives and works in Lisbon. He studied Music Production, Photography and Drawing and is an invited lecturer in Sound and Image at the Escola das Artes da Universidade Católica do Porto.
His practice draws on references from the musical field and explores the relationships between space and the body through the manipulation of modular synthesisers, images, videos and objects. His works create experiences which explore the proximity and tensions between the analogical and the digital, the sensorial and the conceptual. Through performances and live events the artist expands these experiences to the audience who, by coming in contact with the works, observes the process of creation of the musical idea and sonic composition, making their body – its approximation, removal or modelling – a central element in the creation of the works.
His projects, performances and exhibition include the group show Esfíngico Frontal (curated by Germano Dushá), Galeria Mendes Wood DM, São Paulo, 2023; Poly-Free, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, Lisbon, 2022; Alto Mar / Metavox, Palácio Nacional de Belém, Lisbon and Les Laboratoires d’Aubervilliers, Aubervilliers, 2022; Doppelganger III, Sound & Future, Plataforma Revólver, Lisbon, 2022; and Doppelganger VII, Lux Frágil, Lisbon, 2022; Clouds, Kunstraum Botschaft, Berlin, 2021; Winter Work, Galeria Quadrado Azul, Lisbon, 2021, while a member of the group Matéria Simples with which he also created A Ilha de Calipso, Appleton Garagem, Lisbon, 2020; and Micro Resonances (Appleton Box, Lisbon, 2020).

 
 
João Pimenta Gomes (Lisboa, 1989) é artista visual e músico, e vive e trabalha em Lisboa. Estudou Produção Musical, Fotografia e Desenho e é professor convidado de Som e Imagem na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto.
 
A prática artística de João Pimenta Gomes parte de referências do campo da música e explora as relações entre o espaço e o corpo através da manipulação de sintetizadores modulares, imagens, vídeos e objetos. Proporcionando encontros entre o analógico e o digital, o sensorial e o conceptual, é no cruzamento com a performance e em eventos ao vivo que o artista amplia estas relações e encontros estendendo-os à interação com o espectador. No contacto com as obras, este é convidado a observar a génese da ideia musical e da composição sonora, fazendo do corpo – da sua aproximação, afastamento ou modelação – um elemento central no processo de criação.
 
Entre os projectos, exposições e performances ao vivo destacam-se: a exposição colectiva Esfíngico Frontal (curadoria de Germano Dushá), Galeria Mendes Wood DM, São Paulo, 2023; Poly-Free, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, Lisboa, 2022; Alto Mar / Metavox, Palácio Nacional de Belém, Lisboa e Les Laboratoires d’Aubervilliers, Aubervilliers, 2022; Doppelganger III, Sound & Future, Plataforma Revólver, Lisboa, 2022; Doppelganger VII, Lux Frágil, Lisboa, 2022; Clouds, Kunstraum Botschaft, Berlim, 2021; Trabalho de Inverno, Galeria Quadrado Azul, Lisboa, 2021, enquanto membro do grupo Matéria Simples com o qual também realizou A Ilha de Calipso, Appleton Garagem, Lisboa, 2020; e Micro Ressonâncias (Appleton Box, Lisboa, 2020).

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